“Pecadores perdoados”: como as religiões vivem o período “joanino”
- 6 de jun. de 2016
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O mês de Junho é caracterizado por danças, comidas típicas, bandeirinhas, festas e quadrilhas. Mas o motivo desta festividade é a homenagem a quatro santos. A festa junina ou festa joanina inicia no dia 12 de Junho, véspera do Dia de Santo Antônio, e se encerra no dia 29, dia de São Pedro e São Paulo. O ponto mais elevado da festa comemorado nas igrejas, através de missas, celebrações e festividades, ocorre entre os dias 23 e 24, dia do nascimento de São João, propulsor do messias. Igrejas Católicas, protestantes e religiões de matriz africana comemoram o período joanino. As igrejas neopentecostais não comemoram este período.

Para a igreja Católica, o símbolo mais forte desta data é a fogueira, no qual foi um sinal de que quando nascesse São João Batista, o sinal da fogueira seria para avisar Nossa Senhora do nascimento do Santo, afirma o Padre Aldenor Benjamim. “Quando acendeu a fogueira e Nossa Senhora viu, surgiu a tradição de acender a fogueira. Assim os festejos juninos estão ligados ao Nascimento de São João Batista”, diz. Em todo o Brasil, durante os festejos acontecem as quadrilhas, os forrós, leilões, bingos e os casamentos caipiras.
Hoje, com a população predominantemente urbana, observam-se esforços para manter a tradição. Nessas reuniões procura-se reviver tradições rurais como as danças de quadrilha, o uso dos trajes tipicamente rurais e diferentes brincadeiras alusivas ao período. Há o consumo de diversas comidas tradicionais deste período, aliadas, no Amapá, com as comidas típicas locais, como a maniçoba e o vatapá. Conforme orienta o padre Aldenor, a igreja participa da festa junina com eventuais cerimônias e como um momento de encontro entre os fieis, onde há lazer e um momento em que congregantes possam se conhecer, por isso são organizados bingos ou rifas, que, além da confraternização, angariam fundos.
A Igreja Católica esclarece que, aos poucos, na história ocidental, foram elaborados dois calendários. O litúrgico, que é o calendário da igreja, onde acontecem as festas religiosas e dos santos; e o calendário civil. Estes calendários divergem muito. Padre Aldenor, pároco da Igreja Nossa Senhora da Conceição e professor da Universidade Federal do Amapá, explica: “O calendário religioso começa com a festa do Advento e termina com a festa de Cristo Rei, e o civil começa dia 1º de janeiro e termina dia 31 de dezembro”. Quando a Igreja elaborou o calendário, essas festas juninas se consolidaram. As comemorações, muitas vezes, já existiam, o que aconteceu foi somente uma cristianização delas. Alguns santos, por coincidência do dia da morte ou do nascimento, se tornaram populares na devoção das pessoas, como é o caso dos comemorados no mês de junho: Santo Antônio, São João Batista, São Pedro e São Paulo. Para outro religioso, este da cidade de Santana, as festividades juninas “são muito bonitas e tem um sentido explicitamente religioso; são festas que nasceram ao redor do santos, Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo”, diz padre Inácio, 62 anos, pároco da igreja Nossa Senhora de Fátima da cidade de Santana.
Padre das ilhas do Pará, Inock Bouba, de 44 anos, nascido em Camarões mas radicado no Brasil há mais de vinte anos, chama a atenção para que a espiritualidade da festa seja mantida. Para ele, “a alegria, para ser madura, precisa de espiritualidade. A igreja se preocupa em deixar a alegria e ter cuidado com as coisas do mundo, para que a festa dos santos não vire um carnaval. Estas datas são necessariamente para comunicar o exemplo de vida do santo”. Ele também explica como os Santos se tornaram santos: “o santo é um pecador perdoado, porque o perfeito não existe nessa terra. Os santos querem nos inspirar”.
A data em que comemoramos os santos, muitas das vezes são seus aniversários de morte, assim consolidando sua morte em vida como um nascimento à vida eterna perante Deus. Padre Inock argumenta que “o cristão não considera morte como morte, mas como um nascer, você nasceu nessa vida e depois nasce na vida de Deus, com isso a igreja celebra o santo na vida de Deus”.
Toda essa comemoração voltada a religiosidade, trás um sentimento de voltar as suas raízes, “muitas pessoas voltam aos interiores, isto é muito bonito pois voltar às suas devidas origens é voltar a uma cultura religiosa e a gestos tradicionais. Muitas festas se retomam valorizando a vida destes santos. Claro que não podia faltar as comidas típicas da época junina, e sem falar que um gesto muito bonito é o pulo da fogueira, afinal a vida é uma fogueira e devemos seguir como os santos e superar nossas dificuldades”, complementa o padre Aldenor. Na igreja São João, em Santana, é comemorado duplamente o dia do santo que dá nome à igreja. Quando Maria, de 46 anos, assumiu a coordenação da igreja, ela fez questão de separar São João Apostolo e São João Evangelista. “Essa festa do mês de junho é considerada festa junina em comemoração a São João Apóstolo e não São João Evangelista, que é comemorado pela igreja no dia 27 de dezembro, porém vai haver uma festa da catequese, não vai ser uma festa grande como era a anos atrás, mas é para continuar a tradição da festa de São João Apóstolo”. A diferença é que são João Batista foi discípulo de Jesus e o Evangelista é o que escreveu o quarto evangelho, ou seja, são a mesma pessoa, porém um e homem (discípulo de Jesus) e o outro é santo. São comemorados em dias diferentes por suas características de vida.
Período junino e as outras religiões
Os evangélicos não concordam e não participam das festas juninas, pelo fato de ser uma celebração a santos. As comidas e as danças são longe de ser apenas uma diversão. A festa junina não é cultural para estes fiéis, é somente associada ao culto dos santos, que eles não acreditam. “Onde um crente poderia participar disso?”, pergunta o Pastor Paulo, de 52 anos, da Assembleia de Deus Esconderijo do Altíssimo. Ele mesmo responde: “se for assim, os evangélicos poderiam participar de todo o ritual religioso professado na igreja católica”, o mesmo ainda complementa: “é claro que nenhum evangélico participaria dessa festa com a intenção de praticar a idolatria, que tal procedimento é condenado pela bíblia”, diz. Outro pastor desta igreja, Nilton Almeida acrescenta que a festa junina é profana. “A cabeça de João Batista foi cortada ali e não vamos celebrar isso, isso é profano. A festa cujo o objetivo dela é a morte dele, não comemoramos pois a origem dela é pecaminosa”, argumenta o pastor, mesmo que no pátio da sua Assembleia de Deus Esconderijo do Altíssimo, no dia da entrevista, estavam sendo cortadas e coladas bandeirinhas juninas para uma pequena festa junina que é organizada para angariar fundos para o Encontro de Jovens com Cristo.
Já a Umbanda, religião de matriz africana, vivencia o Evangelho de Jesus e sua essência através da manifestação do amor e da caridade prestada pela orientação dos guias, mentores e protetores que recebem irradiação dos orixás, segundo o cultuante Gabriel Scotti, 25 anos, cultuante da Umbanda desde o seu nascimento “minha mãe e meu tio são pais de santo, então nasci na umbanda, porém eles nunca montaram um terreiro” afirma.
Assim, na festa de São João a simbologia da fogueira que a Umbanda acredita remete a lenha que se consome, ou seja, que diminui para que as labaredas cresçam. Os crentes aproveitam para fortalecer o que chamam de “fogo divino e transformador que temos dento de nós”, explica Scotti. Xangô talvez seja o Orixá que é mais sincretizado com os santos católicos. “Por isso Xangô é tão festejado neste mês de Junho, principalmente nos folguedos de São João e São Pedro. Xangô é o Orixá da Justiça e seu campo preferencial de atuação é a razão, despertando nos seres o senso de equilíbrio e equidade. A cerimonia em honra a Orixá e Xangô depende muito da família de santos em que e como se cultua o Orixá. Cada família tem seus dogmas, uns comemoram Xangô no mês junino e outros em são Jerônimo”, comenta Gabriel Scotti.

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