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Quadra Junina é um dos grandes espetáculos populares

  • 6 de jun. de 2016
  • 7 min de leitura

A festividade junina é a segunda mais importante festa popular da cultura brasileira, ficando atrás somente do Carnaval. Um dos pioneiros desta festa no estado do Amapá foi Manoel Ferreira, o Biroba, um nordestino que veio para Macapá e organizou a primeira quadrilha junina nos anos 1950. Desde então surgiram muitas quadrilhas que cresceram e que hoje dão vida a famosa Quadra Junina, que começa a ser organizada após o carnaval, quando os grupos iniciam a preparação para as apresentações de junho. A festa passou por diversas transformações ao longo dos anos, mas ainda é o maior evento cultural do estado.

Antes da organização da Quadra Junina como é hoje, houve mudanças no decorrer das décadas. Quando os primeiros imigrantes vieram para o Amapá no início do território amapaense, na década de 1940, trouxeram suas influências e desenvolveram festas únicas, mesclando suas tradições vindas de outras partes do país - principalmente a cultura nordestina - com os costumes locais.

As comemorações juninas passaram por 3 fases no estado. A princípio eram os “Cordões de Pássaro”, que eram encenações teatrais e musicadas trazidas do Pará. Na representação eram contadas histórias que tratavam de diversos temas, de disputas familiares a narrativas amorosas, através de personagens como matutos, nobres e índios. A tradição perdurou dos anos 1950 até os anos 1960 e ocorria na extinta Piscina Territorial, que ficava situada atrás do atual Ginásio Avertino Ramos, no centro de Macapá. “O local era frequentado por toda sociedade amapaense e autoridades, onde eram realizadas manifestações culturais e sociais. A Piscina Territorial foi um dos berços das comemorações juninas no estado”, observa o professor Rostan Martins.

A segunda fase foi o “Boi Bumbá”, que assim como o “Cordão de Pássaro”, havia um enredo que contava histórias sobre a lenda da morte e ressurreição de um boi. A dança faz parte do folclore popular brasileiro, e além das representações teatrais haviam cortejos e outros tipos de apresentações, utilizando a figura do animal com personagens humanos e animais fantásticos. As encenações ainda são muito fortes no nordeste, principalmente no Maranhão. Na região norte é o estado Amazonas que mantém a tradição. No Amapá a tradição do Boi Bumbá durou dos anos 1960 até aproximadamente o ano de 1975, quando as quadrilhas começaram a ganhar mais força.

Foto: Mariléia Maciel/Divulgação

E a terceira fase, que perdura até hoje, são as quadrilhas juninas, primeiramente organizadas por Biroba, o desbravador desta tradição no Amapá. O jornalista Osvaldo Simões conta que a princípio eram chamadas de “quadrilha caipira” ou “quadrilha matuta”, ou seja, as quadrilhas tradicionais, com passos determinados pelo marcador, responsável por comandar a apresentação. A dança representa o grande baile de casamento realizado na roça. “A quadrilha tradicional apresentava o caboclo, o homem da roça e suas características, geralmente era encenado um casamento, em que havia os cumprimentos, o padre para realizar a cerimônia, o noivo que tenta fugir e a noiva e seu pai com a espingarda para forçar o noivo a casar”, explica.

Até os anos 1980, quando surgiu a Quadra Junina, as quadrilhas tradicionais eram predominantes. No início da década de 1990 foi ocorrendo um processo acelerado de transformação, surgindo os grupos denominados “estilizados”, que foram quadrilhas que aos poucos mudaram o que era a quadra junina amapaense, trazendo outras influências de estilo. “Nos anos 1990 houve uma ‘carnavalização’, ocasionando uma ruptura entre a quadra junina tradicional e a quadra junina estilizada. A quadra junina tradicional ainda existe, mas a cada ano se enfraquece mais. Essa carnavalização está deixando morrer tradições importantes da cultura junina e o verdadeiro sentido da festa se perde”, afirma o professor Rostan Martins.

O historiador e diretor cultural da Quadra Junina, Alan Sales, afirma que as mudanças são para garantir a sobrevivência dos grupos e que é preciso estimular o aperfeiçoamento artístico. “Temos uma identidade, mas ela também tem um caráter transitório. A quadra junina poderia ter padecido se tivesse permanecido essencialmente como era. Ela tinha uma identidade com a essência mais nordestina, e aqui chegou um momento em que não agradava mais. E o que veio de novo é para substituir e garantir o funcionamento da festa, uma vez que os quadrilheiros abraçaram esse novo estilo”, diz.

Mesmo dentro da perspectiva de evolução e modernização, existe o esforço de manter a essência para que não sejam perdidos traços característicos. Há sempre um conflito ao falar de tradição sem conservadorismo, mesmo que grande parte dos grupos que existem no Amapá hoje são estilizados.

Maick Reis, diretor e conselheiro do Grupo Revelação, quadrilha que já participa da Quadra há 27 anos, diz que o grupo é estilizado, mas que nunca foi perdido o verdadeiro espírito da Quadra Junina tradicional. “Somos estilizados, mas nunca deixamos de dançar forró, o xaxado, o xote. Voltamos nosso grupo para a cultura nordestina, não perdemos a essência da verdadeira festa junina”.

A relação com o carnaval é inevitável e o diretor vê de forma natural as mudanças da festa. Ele afirma que a aproximação dos dois eventos vem do fato dos participantes transitarem entre os dois festejos. “Uma coisa que talvez o povo não saiba, é que a quadra junina amapaense sofreu fortes influências do carnaval amapaense, em que muitos dos representantes das quadrilhas juninas fazem parte das escolas de samba”, justifica. Muito mais brilho, cores e novos ritmos foram incorporados, a possibilidade de se trabalhar com outros universos e não apenas o junino dão cara nova à festividade. Até as quadrilhas tradicionais acompanham com mudanças mais sutis, buscando um meio termo para não descaracterizar a festa junina tradicional.

Mudar para não acabar

Na década 1990 e início dos anos 2000, o público não acompanhava as apresentações como em outras épocas. O enfraquecimento do movimento também foi um dos motivos para que as mudanças se concretizassem A desconfiança e as críticas pelas mutações no início acabaram se tornando um dos motivos para o sucesso da Quadra Junina hoje.

A partir de 1996, a Quadra Junina passa a ser gerenciada por entidades que coordenam os festivais oficiais. Em 1997 fundou-se a primeira liga de quadra junina no Amapá, a Liga Independente dos Grupos e Associações Juninas do Amapá (LIGAFAP), que representa os grupos e organiza as quadrilhas. A ideia de quesitos começa a ser amadurecida, alguns deles são pensados para garantir que a essência seja mantida, outros para inserir o novo modelo estilizado.

A competição por título acirra a disputa entre os grupos e gera uma outra forma de apresentação, mais desenvolvida e trabalhada, desde as indumentárias até as coreografias.

A preparação começa muito antes da grande festa estadual. São realizados pré-festivais, eventos criados pelos grupos para arrecadar como uma forma de arrecadar recursos, criado pelo grupo Simpatia da Juventude no início dos anos 2000. A competição oficial dos grupos que participam da quadra junina, é feita por eliminatórias nos polos regionais, com ápice na grande final estadual, realizada em junho. Em cada polo há uma disputa em que metade das quadrilhas se classificam para participar da etapa estadual. Macapá, Santana e Mazagão são polos municipais, com a maior quantidade de quadrilhas; o polo Norte agrega as quadrilhas de Oiapoque, Calçoene, Tartarugalzinho, Amapá, Ferreira Gomes, Serra do Navio, Pedra Branca do Amapari e Porto Grande; o polo Vale do Jari com os municípios de Laranjal do Jari e Vitória do Jari.

No último ano a Federação das Entidades Folclóricas do Amapá (FEFAP) organizou o festival com 104 grupos de todo estado, entre grupos tradicionais e estilizados. Esse ano apenas 74 grupos se apresentam na Quadra, a falta de recursos dificulta que as quadrilhas se mantenham e participem da grande festa. Só em Macapá existem aproximadamente 56 grupos tradicionais e estilizados.

As transformações na quadra junina a tornaram um produto diferente, porém interessante. “Um dos elementos que tornam a nossa quadra junina única, em relação a outros estados do Brasil, é que aqui nossa quadra é temática. Escolhemos um tema e a partir desse tema é preparada a quadrilha junina, não necessariamente relacionada ao universo junino, mas sempre é voltado para a cultura nacional”, explica Alan Sales. É uma maneira de valorizar e fomentar a cultura brasileira, evitando que as tradições se percam entre as novas gerações.

Uma lenda viva

Poucas figuras foram tão importantes e originais quanto Manoel Ferreira, o Biroba. Com seus 84 anos, Biroba permanece com olhar inocente e o cansaço de quem contribuiu muito para o cenário cultural amapaense em décadas de trabalho. Hoje vive com suas irmãs, que cuidam com todo zelo do irmão, que pode não ser de sangue, mas é de alma. E há mais de 60 é assim, desde que foi acolhido pela família.

Toda a festa junina amapaense não seria a mesma sem essa figura. Quando começa a falar do passado é possível ver o brilho nos seus olhos. Biroba já cantarola: “olé, mulher rendeira, olé, mulher rendá, tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar”, afirmando que era música de sua quadrilha, a “Quadrilha dos Jovens”. O primeiro marcador de quadrilha do Amapá lembra com saudosismo de quando começou a marcar quadrilha aos 18 anos, na Praça Nossa Senhora da Conceição, inspirados pelos discos de Nara Leão. Com o tempo ficou tão requisitado que recusava convites para marcar quadrilhas, as escolas da cidade disputavam seu tempo. Naquela época era “dança de roça pra se divertir”, recorda.

Biroba sempre cita a beleza da vida e da criação divina. Seu cuidado e respeito com o próximo cativam. Segundo sua irmã Maria Alice, era com essa simpatia que ele “pedia permissão das mães das moças para que dançassem em sua quadrilha”. E com seu cuidado buscava e deixava os jovens na porta de casa. Desenhava as roupas de suas quadrilhas e as mandava fazer, chegando até a tirar do próprio bolso para fazer as vestimentas de suas crianças. Doava-se e fazia tudo de coração, pois “era pra dar a beleza para o povo, e o povo gostava da quadrilha”.

Mas não foi só marcando quadrilhas que Biroba se destacou. No futebol amapaense criou a “Copa do Mundo Marcílio Dias” e a disputa de “Solteiros x Casados”, em que narrava todos os jogos realizados na Praça Nossa Senhora da Conceição. Com um sorriso no rosto diz: “eu arrasei tudo no futebol”. Também dedicou sua vida ao escotismo, com os Escoteiros do Mar Marcílio Dias e já foi até homenageado em samba enredo do Piratas da Batucada.

Mesmo com a memória vacilando um pouco, as lembranças permanecem vivas e ele ainda tem muita história para contar. De todas as paixões de Biroba, a que nunca diminui é pelo seu time do coração, o Vasco, que ele acompanha sempre por seu radinho onde ainda escuta todos os jogos.


 
 
 

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