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Quadrilhas do AP se preparam há meses para as festas juninas

  • 6 de jun. de 2016
  • 6 min de leitura

Há meses a preparação das quadrilhas ocorre de forma intensa na quadra junina, período que engloba não somente o mês de junho, mas todo o tempo de preparação das quadrilhas para estes festejos. As quadrilhas estão ensaiando assiduamente para a disputa da festa oficial, que acontece nos dias 2,3 e 4 de junho, organizada pela Fefap – Federação dos Eventos Folclóricos do Amapá. A organização dos grupos juninos ocorre bem antes das apresentações para arrecadação das finanças. Os ensaios são realizados nos mais diversos cantos do Estado. No entanto, a cada ano ocorre uma redução das quadrilhas tradicionais e um aumento nas estilizadas.

Sem verba por causa da quadrilhas criam alternativas na quadra junina para custear os gastos das apresentações

Foto: Marcelo Loureiro/Governo do Amapá

As quadrilhas correm contra o tempo para deixar tudo pronto para as apresentações. O ensaio da coreografia das quadrilhas começa meses antes das apresentações, nas praças da cidade, nas quadras de escola de todo o Estado, em diferentes horários, principalmente à noite. Para Fabiola Almeida, “a gente vem falando dessa temática desde novembro e estamos programando para colocar em prática com ensaios em média de duas horas e meia por dia para uma apresentação no evento de trinta minutos”, ressaltou a coreografa da quadrilha “Pequena Dama”.

Outra quadrilha que se prepara há alguns meses é a “Geração Junina” que tem aproximadamente 25 anos de tradição, 25 pares de brincantes e o marcador que tanto na quadrilha estilizada como na quadrilha tradicional tem um papel fundamental, porém exerce funções distintas de uma para outra. Se na estilizada ele se destaca como apresentador e performer, na quadrilha tradicional seu principal papel é comandar a apresentação da quadrilha junina, empolgando os brincantes, interagindo com o público, animando o terreiro. O grupo conta com aproximadamente 20 pessoas na parte da organização, contendo diretoria e pessoal do apoio.

Quem está à frente da presidência desde 2013 é Charles Façanha . Ele disse que a coreografia foi montada desde fevereiro deste ano e logo em seguida os ensaios começaram na quadra da escola Santa Inês. No entanto a escola é originária do bairro Buritizal. O tema desta equipe, que é livre para cada quadrilha, são os jogos, mas na concepção da “Geração Junina” Charles relata: “não são todos os jogos porque há uma gama muito grande deles, em um determinado momento da nossa apresentação nós vamos falar dos jogos olímpicos, aí quando chegar os passos de quadrilha nós vamos falar daqueles jogos que são feitos no arraial e por fim os jogos eletrônicos”, disse o presidente sobre a temática.

A quadrilha “Revelação Junina” gira em torno de 120 pessoas, com 25 pares de brincantes. A preparação do grupo conta com a ajuda de profissionais estilistas, coreógrafos, aderecistas, pessoas que trabalham no barracão com a criatividade, soldadores, carpinteiros. Segundo José Figueiredo “a quadra junina, com todas as dificuldades, está mantendo o espetáculo. Hoje nós somos 15 mil pessoas que fazemos o evento no Estado, aí nós tiramos 3 mil que trabalham diretamente nos grupos. Com essa crise isso aquece a economia e faz com que eles ganhem os seus dinheiros”, disse o marcador da “Revelação Junina” sobre a quadra no Amapá.

As apresentações das quadrilhas são organizadas por polos, que são eliminatórias. Polo Macapá, Santana, Mazagão, Polo vale do Jarí (Laranjal e Vitória) e polo norte (Ferreira Gomes, Porto Grande, Amapá, pedra branca, Calçoene, Oiapoque).

Algumas peculiaridaes do Amapá

A quadra junina Amapaense, ratificada como a preparação da festa e o período de eliminatórias e disputas finais das quadrilhas, bem como o período da festa, é diferente dos festivais do restante do Brasil, pois a forma de disputa é singular. Danilo Yeshua, ex-carnavalesco da Escola de Samba paulista Acadêmicos do Tucuruví, foi convidado pra trabalhar aqui no Estado por amigos para ser jurado de quadrilha. “Quando eu cheguei aqui no Estado eu me deparei com uma quadrilha totalmente diferente do restante do Brasil, na minha cidade em São Paulo não tem esse modelo de concurso, são apenas shows, quermesses e festivais informais. O Amapá conseguiu moldar um estilo de quadra junina única que é a sua marca registrada”, enfatizou o jurado.

Segundo o presidente da quadrilha “Pequena Dama”, a mais antiga do Estado, com 36 anos de tradição, conta com 60 brincantes. É a mais premiada e nunca ficou fora de um ano junino. O tema da quadrilha é gelo e fogo, ela vai falar sobre o choque térmico no São João, no sentido de retornar a tradição da fogueira. De acordo com Reginaldo Pereira, o tema foi escolhido porque hoje no terreirão – lugar onde são realizadas as apresentações – não, se encontra mais fogueira, que é um dos símbolos maiores da cultura junina, que envolve os quatro santos, Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo. “Nós vamos fazer um choque térmico pra descongelar essa fogueira”, disse Pereira.

A crise no Estado e o não repasse financeiro para o carnaval fez com que os quadrilheiros ficassem em alerta e começassem a organizar os grupos juninos bem antes do tempo considerado normal, com a busca de patrocinadores e a realização de eventos para angariar fundos. O diretor financeiro da quadrilha “Pequena Dama” conta que resolveu buscar outros meios para custear as despesas da quadrilha desse ano, “como a gente não sabia se ia ter repasse do governo, a gente trabalhou por fora pra fechar a nossa indumentária. Esse ano a gente está com um projeto de iniciar um pagode toda sexta feira, justamente pra angariar fundos pra não depender de repasse de governo”, disse Andrio. Um pedido da sociedade?

Por muitos anos a quadrilha “Pequena Dama” participou do grupo tradicional, mas com o tempo eles optaram em passar para o grupo das quadrilhas estilizadas, “porque a sociedade pede e se tu não seguir um pedido da sociedade fica pra trás”, disse Reginaldo sobre a mudança de categoria. Vários pontos diferenciam uma quadrilha tradicional de uma estilizada, principalmente no regulamento. Na tradicional o primeiro elemento que se distingue é a temática; as quadrilhas só podem trabalhar com características regionais. Já as quadrilhas estilizadas trabalham com temas mais amplos, com vários assuntos de culturas diversas. Segundo o jornalista Claudio Rogério, 42 anos, que é produtor de um programa de rádio sobre as festas juninas e também é consultor de temáticas para as quadrilhas, o segundo ponto é a questão das indumentárias. Ele diz que “as quadrilhas tradicionais não podem usar nenhum assessório brilhoso que venha descaracterizar as indumentárias tradicionais, já as estilizadas trabalham com a utilização de brilho, pedrarias e são mais luxuosas”. O terceiro ponto, ainda conforme o jornalista, é “a dança, a marcação das estilizadas são mais coreografadas, existe um sincronismo entre elas. Já nas tradicionais nem tanto, pois a marcação é chamada de matutagem e nem sempre requer esse sincronismo entre os brincantes do grupo”. E por fim há o teatro: as quadrilhas estilizadas não a utilizam, mas a quadrilha tradicional a explora, levando o público, muitas vezes, a dar gargalhadas, como conta o jornalista.

Este ano 75 quadrilhas vão participar da quadra junina em eventos oficiais organizados pela FEFAP, delas 20 são quadrilhas tradicionais e 55 são estilizadas.

O resultado dos eventos organizados pela FEFAP fica a critério dos jurados escolhidos pela própria federação. Os jurados seguem o manual do julgador onde constam vários quesitos que são diferenciados em relação às quadrilhas tradicionais das estilizadas. Os critérios analisados pelos jurados na quadrilha tradicional são marcador, Miss caipira, originalidade, indumentária, criatividade, casamento, harmonia de passos, danças tradicionais, tema, entrada e saída. Na quadrilha estilizada são avaliados tema, conjunto, marcador, indumentária, miss caipira, passos de quadrilha, dança, harmonia de passos, evolução, criatividade, entrada e saída.

Para a escolha da garota FEFAP, que faz parte da quadra junina, são analisados 5 quesitos, onde há dois jurados para cada elemento, totalizando 10 julgadores ao todo. No concurso das quadrilhas têm 10 quesitos com dois jurados para analisar cada critério, somando 20 no total.

De acordo com Danilo, ex-carnavalesco da Acadêmicos do Tucuruvi, ao relatar sobre a forma de sua avaliação sobre as quadrilhas, ele conta que segue o manual do julgador, “eu procuro ser imparcial e ético, ponho em prática minha visão plástica, panorâmica e técnica, avalio o conjunto como um todo e o resultado do trabalho apresentado pelas entidades folclóricas”, disse o jurado.

Os festejos juninos iniciaram na Europa num período de litígio entre França e Inglaterra

Foto: Ruan Alves/Governo do Amapá

A sabedoria popular diz que a dança de quadrilha teve origem na Inglaterra, por volta dos séculos XIII e XIV. A guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra serviu também para promover uma transferência cultural entre esses países. A França adotou a quadrilha e levou-a para os palácios, tornando-a assim uma dança nobre. Esta festividade foi trazida para o Brasil pelos portugueses, ainda durante o período colonial (época em que o Brasil foi colonizado e governado por Portugal). Nesta época, havia uma grande influência de elementos culturais portugueses, chineses, espanhóis e franceses. Da França veio a dança marcada, característica típica das danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicas quadrilhas. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio da China, região de onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Da península Ibérica teria vindo a dança de fitas, muito comum em Portugal e na Espanha.


 
 
 

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